O
crescimento acelerado do turismo e da indústria do gás está a impulsionar uma
nova fase de investimentos em infra-estruturas de saúde na província de
Inhambane. Numa região onde chegam, todos os anos, milhares de turistas nacionais
e estrangeiros e onde decorrem alguns dos maiores projectos de exploração de
gás natural do País, aumenta também a exigência por serviços médicos capazes de
responder a situações de emergência, acidentes de trabalho e cuidados
especializados.
É neste
contexto que as autoridades de saúde defendem uma participação cada vez mais
activa do sector privado como complemento ao Serviço Nacional de Saúde,
considerando que o desenvolvimento económico exige igualmente o fortalecimento
da capacidade de resposta médica.
Para o
director provincial de Saúde de Inhambane, Carlos Estêvão, o Estado não pode,
por si só, responder a todas as necessidades da população, razão pela qual a
legislação moçambicana prevê a participação do sector privado e do subsistema
comunitário na prestação de cuidados de saúde.
Segundo o
responsável, o surgimento de unidades privadas dotadas de padrões
internacionais de qualidade representa um reforço importante para o sistema de
saúde e para o próprio desenvolvimento económico da província.
“Quando
surge um empreendimento desta categoria e com certificação de qualidade de
serviço, é uma valia para o Estado moçambicano, para o Governo da província e
para o distrito de Vilankulo”, afirmou.
Carlos
Estêvão lembra que o turismo é um dos principais motores da economia de
Inhambane e que a existência de serviços médicos constitui um factor decisivo
para muitos visitantes internacionais na hora de escolherem destinos.
“Quando os
turistas procuram um pacote turístico, uma das perguntas que fazem é se existe
acesso a serviços de saúde de qualidade no local. O sector privado pode dar uma
resposta importante a essa necessidade”, explicou Carlos Estêvão.
Na visão
das autoridades provinciais, a expansão do investimento privado na saúde deverá
continuar a ser estimulada, à semelhança do que acontece noutros sectores
considerados estratégicos para o desenvolvimento do País.
“O Governo
incentiva a participação do sector privado na saúde, na educação, na
agricultura e em várias outras áreas fundamentais para o crescimento
económico”, acrescentou Estêvão.
Contudo, o
director provincial de Saúde de Inhambane considera que o maior desafio começa
depois da obtenção de certificações internacionais de qualidade.
“Conseguir
a certificação é importante, mas a verdadeira batalha passa pela manutenção
desses padrões e pela sua disseminação para outras instituições, públicas e
privadas, para que todo o sistema de saúde evolua”, defendeu.
A aposta em
cuidados de saúde surge também como resposta às necessidades criadas pela crescente
actividade económica no corredor Vilankulo–Inhassoro, onde operam empresas
ligadas ao turismo e à indústria extractiva.
O
investidor Sérgio Dique explica que a decisão de investir naquela região nasceu
precisamente da constatação de que existia uma lacuna na oferta de serviços
médicos compatíveis com a dimensão dos investimentos em curso.
Segundo
refere, muitos visitantes estrangeiros demonstram preocupação quanto ao acesso
à assistência médica antes de escolherem Moçambique como destino.
“Quando um
turista pensa em viajar para África, uma das primeiras perguntas que faz é: se
eu adoecer, onde é que vou ser tratado?”, avançou.
Além da
actividade turística, o empresário aponta o crescimento da indústria do gás
como outro factor determinante para a instalação de uma unidade hospitalar com
capacidade de resposta diferenciada.
“As
operações ligadas à indústria extractiva obedecem a rigorosos padrões
internacionais de saúde ocupacional. Era necessário existir uma unidade capaz
de responder a essas exigências e também a situações de emergência”, explicou.
Até há
poucos anos, acidentes graves ocorridos naquela região obrigavam frequentemente
à evacuação dos pacientes para hospitais situados a centenas de quilómetros de
distância.
Segundo
Sérgio Dique, essa realidade aumentava os riscos clínicos e comprometia a
rapidez da resposta médica.
“Hoje, já
conseguimos estabilizar e tratar uma grande parte das situações de emergência
sem necessidade de transferências imediatas”, afirmou.
Para
garantir essa capacidade de resposta, a unidade investiu em ambulâncias
equipadas para suporte avançado de vida, criou uma unidade de trauma e reforçou
a formação dos profissionais de saúde.
O
empresário moçambicano explica ainda que o investimento em qualidade começou
muito antes da construção da infra-estrutura hospitalar.
A motivação
surgiu de uma experiência pessoal vivida durante o nascimento da sua segunda
filha, quando considerou que os cuidados recebidos pela família não
correspondiam aos padrões que considerava aceitáveis.
Foi a
partir dessa experiência que decidiu desenvolver um projecto assente em
protocolos clínicos, formação contínua e mecanismos permanentes de controlo de
qualidade.
O processo
prolongou-se por cerca de uma década e culminou com a obtenção de certificação
internacional, resultado de investimentos em equipamentos, capacitação do
pessoal e implementação de procedimentos técnicos.
Para Sérgio
Dique, a certificação não deve ser vista apenas como um documento formal. “Ela
representa a confirmação de que os serviços prestados obedecem efectivamente a
padrões internacionais de qualidade”, sublinhou.
O
reconhecimento internacional abre igualmente novas perspectivas para empresas
nacionais que pretendem prestar serviços a grandes multinacionais instaladas em
Moçambique.
Segundo o
empresário, durante vários anos, algumas empresas moçambicanas ficaram
afastadas de determinados contratos, por não reunirem certificações exigidas
pelas operadoras internacionais.
Com o
cumprimento desses requisitos, acredita-se que as empresas nacionais passam a
competir em igualdade de circunstâncias.
“O caminho
não passa por reduzir as exigências das multinacionais. Passa por elevarmos os
nossos próprios padrões de qualidade”, defendeu.
Na sua
opinião, flexibilizar critérios técnicos pode comprometer a segurança dos
trabalhadores e afectar a qualidade dos serviços prestados.
“Na saúde,
não pode haver espaço para relaxamento dos padrões. Temos de investir para
responder às exigências internacionais e conquistar a confiança dos clientes
pela qualidade do nosso trabalho”, acrescentou.
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